Afirma você,meu amigo, que desejaria
colaborar nos trabalhos do Espiritismo cristão, seduzido pela beleza da
doutrina consoladora, mas acrescenta que a complexidade do assunto lhe apavora o
coração.
- Encontrei - diz
você, aterrado - as mais estranhas manifestações, desde o
médium que se enquadrou no Evangelho, qual sacerdote, ao profeta grosseiro, que
maneja o punhal em ritos misteriosos, cabriolando no chão, como o velho capoeira
carioca. Há grupos que se dizem
orientados por Espíritos de filósofos e outros que se afirmam
dirigidos pelo caboclo Manassés ou por Pai Mateus, antigo escravo
de recuada província do Brasil imperial.
Em certas casas, ensina-se a cultivar a prece improvisada,
com os valores espontâneos do coração; em outras,
preconiza-se a repetição de determinado numero de "padre-nossos".
Em alguns lugares, a doutrinação é serena, como a palestra em
residência de criaturas educadas no código de boas maneiras; em outros, porem,
verificam-se balbúrdias e gritarias.
Não admite a minha perplexidade?
Não terei razoes para o afastamento?
E você, de fato, retirou-se e permanece à margem.
Respondendo, todavia, com lealdade, a sua pergunta, asseguro que lhe falta razão. Como
acontece a muita gente, você notou a extensão do trabalho e preferiu a poltrona cômoda
de sua casa. Estima excessivamente o "seu mundo" para atirar-se ao concurso
educativo. Em verdade, sua mente não mais alberga qualquer duvida, referente à vida
eterna. A sobrevivência do homem, após a morte do corpo físico é para você problema
liquidado.
E quando se encontra no café da avenida, junto de amigos gastadores de tempo, ou nos
salões elegantes, ao lado de senhoras chiques, você timbra em contar, com graças, suas
experiências no campo vasto e acolhedor do Espiritismo fenomenico. De quando em quando,
quebra a ponta do cigarro, no cinzeiro de adorno, e prossegue no anedotário brilhante.
Conta as ocorrências, em fraseologia de efeito, e enquanto cavalheiros e damas
inteligentes se referem a René Sudre e Charles Richet, você conclui asseverando que, de
fato, lhe foi impossível continuar o exame do assunto, em virtude das contradições e
exotismo existentes.
É digna de nota a circunstancia de jamais aludir ao ponto de partida de suas
indagações. Esqueceu-se de que procurou a convivência dos companheiros humildes do
grupo espiritista cristão, assediado por terríveis angustias, diante dos sofrimentos
indizíveis da alma sem fé Recebeu novo material de pensamento para o cérebro vazio e
ganhou esperanças para o coração desalentado, mas, em seguida ao reconforto, você
olvidou os benfeitores da véspera e multiplica referencias acrimoniosas e irônicas.
Pudéssemos, porem, pedir-lhe alguma coisa e não nos lembraríamos da flor da gratidão,
raríssima no solo arenoso do planeta, Recordaríamos tão-somente, perante o seu
raciocínio de homem culto, a necessidade de compreensão e conhecimento.
Relaciona, você, complexidades e obstáculos, dificuldades e divergências, mas estará
procurando, porventura, a "doutrina do prato feito"? Onde se encontra a Ciência
que haja nascido completa das mãos dos iniciadores? O Espiritismo, como oficina de
sabedoria e amor, aperfeiçoamento e iluminação, é instituto mundial de trabalho
incessante, onde não há palanque para espectadores ociosos.
Refere-se aos "indianismos" e "africanismos" de inúmeras
manifestações da fenomenologia, mas já pensou maduramente na expressão moral desses
acontecimentos? Tem lido o histórico de nossa evolução coletiva?
Quem recebeu, na terra farta de Santa Cruz, os europeus esgotados por lutas sangrentas,
abrindo-lhes caminhos novos à realização espiritual, transformando-se em escravo
sofredor dos conquistadores inteligentes? Não foi, acaso, o índio? Você, que condenou o
ataque italiano à Abissínia, no século XX, reconhecendo que os filhos de Adis-Abeba
são igualmente filhos de Deus, como os romanos ilustres, também admitirá que Deus não
existia no século XVI e que os povos simples da América não eram dignos do amparo
celestial?
Desconhece o que fez Pizarro, o tirano espanhol, diante dos americanos ingênuos que nele
confiaram? E os africanos? Quem os arrebatou da terra natal, arrebanhando-os como a
animais, a fim de aproveitar-lhes o braço forte nas construções do Mundo Novo? Quem os
assassinou, devagarinho, em navios infectos e vendeu os que resistiram à morte aos
cruéis senhores do feudalismo rural? E é justamente você meu amigo, leitor assíduo da
Historia, quem admira, com falsa ingenuidade, as manifestações dos nossos irmãos, ainda
encarcerados no rudimentarismo da forma?
Entretanto, Pai Mateus e Mãe Ambrosia, a que se refere com tanto sarcasmo, foram pajens
carinhosos de seus bisavós, furtaram o leite dos próprios filhinhos para que os seus
antepassados vivessem, e choraram, na senzala, em segredo, quando os seus recuados
parentes lhes prostituíam as filhas, vendendo-as, logo após, com frieza e ferocidade,
aos tiranos do cativeiro
Não considera você que todos nos, espíritos de inteligência requintada, mas de
sentimento galvanizado no mal, somos devedores antigos dessas almas virtuosas e nobres,
embora muitas vezes cristalizadas em velhos hábitos que lhes retardam o progresso
intelectual? Quem estará mais errado, perante Deus? Elas, que atrasaram o cérebro, ou
nós, que endurecemos o coração?
A morte não é um banho miraculoso de sabedoria, repetiremos ainda e sempre. Somos tais
quais fomos, tendendo para o melhor, porque a evolução não dá saltos, como o
trapezista suspenso no ar por um fio de arame.
E Espiritismo é tão complexo como qualquer serviço de educação. E só encontramos
numerosas entidades de africanos e indígenas, em nosso ministério espiritual, é que o
Senhor nos chama ao pagamento de enorme debito para com aqueles que nos serviram a todos,
nos últimos quatro séculos, na terra abençoada e farta do Brasil.
Como vê, a nova doutrina consoladora pede colaboradores de consciência bem formada e
não críticos de raciocínio brilhante
Se você desejar trabalhar, com sinceridade, procure o seu lugar na oficina do serviço
educativo e ajude na obra coletiva do bem, convicto de que Jesus inspira a todos os
cooperadores de boa vontade. Mas, se você não quiser, faca o possível por se calar,
sente-se na sua poltrona e espere o futuro
IRMÃO X
(Francisco Cândido Xavier edição FEB.)
|